Ads Top

Na Lupa I Língua e nacionalidade em Budapeste

 O ofício da escrita exige bastante daqueles que a ela se dedicam, dada a complexidade que a sua significação sugere. Para construir um belo texto é preciso amar as palavras, escolher com carinho o seu posicionamento nas frases a fim de lançar a mensagem desejada.

É preciso se apaixonar pela riqueza das imagens sugeridas pelo texto para logo em seguida se desprender do mesmo, deixando que as múltiplas interpretações o absorvam e construam seus inúmeros significados.

Adaptada do livro homônimo de Chico Buarque a narrativa desta película acompanha o escritor José Costa que exerce a função de “ghost writer”, alguém que escreve diversas obras mas não recebe o crédito por elas, sendo o mesmo transferido para aqueles que o contrataram.

A grande mudança na vida do protagonista acontece quando, em função de uma suspeita de ameaça terrorista, o avião no qual ele retornava de uma convenção é forçado a aterrissar na cidade de Budapeste.


O inesperado contato com a língua local faz com que ele se apaixone por ela. Fascinado pela línguística e fonética húngara, ele retorna ao Rio de Janeiro onde escreve a biografia de um alemão que se enamora pelo Brasil. Utilizando a sua própria experiência ele cria um best-seller.

O sucesso da obra é tanto que sua esposa termina seduzida pelo pseudo-autor do mesmo, embriagada pela força do texto atribuído a ele. Cansado do casamento e angustiado pelo constante esforço não reconhecido ele retorna à cidade européia, onde reencontra sua alma na gramática estrangeira e nos braços da psicóloga Kriska que lhe ensina este novo idioma.

A montagem do cineasta Walter Carvalho retrata como José vai sendo gradativamente cativado pela estrutura gramatical estrangeira, sendo tomado a princípio pelo caráter exótico da mesma para depois tornar-se completamente submisso a ela, a ponto de ouvir um samba e traduzi-lo inconscientemente em húngaro.

Interessante perceber o carinho que o personagem possui pela pronúncia em geral, seja no deleite do eco produzido pela ligação interurbana ou na simples repetição das palavras novas que vai aprendendo durante a sua estadia neste velho novo país.


Vale comentar a desmistificação feita ao Leste Europeu, geralmente retratado como decrépito e decadente. O diretor realça o charme arquitetônico das construções além da beleza histórica local.

Importante mencionar também o debate sugerido na projeção sobre a necessidade de reconhecimento pela criação de uma obra literária. A estátua do escritor anônimo preza acima de tudo o valor do texto e o seu impacto sobre aqueles que o lêem, mas a interação entre criador e criação é tanta que é difícil manter uma postura indiferente, permanecendo incógnito enquanto terceiros levam a glória por algo que não fizeram.

Um filme sobre a reconstrução de uma nacionalidade a partir da desconstrução do espírito que interfere por sua vez na própria leitura da vida através de uma nova linguagem.


Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

Tecnologia do Blogger.