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Na Lupa I Distância geográfica e emocional em Encontros e Desencontros



A película em questão narra a trajetória de Bob Harris, um ator americano em decadência que vai a Tóquio para ser a estrela de um comercial de uísque. Casado, mas emocionalmente distante da esposa e filhos, acaba tendo problemas de adaptação, não somente no que se refere às diferenças de fuso horário mas na disparidade cultural, embora Tóquio esteja hoje bem ocidentalizada.

É então que ele cruza com Charlotte, uma hóspede do mesmo hotel que está acompanhando o marido John, um fotógrafo contratado por uma banda local. Recém-formada em Filosofia, ela sente a mesma inadequação. Em pouco tempo os dois acabam se tornando confidentes e desenvolvendo uma relação platônica, retratada de forma bastante sutil pela diretora Sofia Coppola.


"Encontros e Desencontros" poderia ser filmado em qualquer outra grande metrópole, já que o foco do mesmo não é a cultura japonesa, mas a atomização do homem pós-moderno dentro do espaço urbano da metrópole. Solidão em meio ao funcionalismo anti-séptico.

O ensaísta José Ortega y Gasset afirmou certa vez que a verdadeira identidade de um país está em suas cidades interioranas, onde a arquitetura popular predomina ao invés da praticidade uniforme arquitetônica cosmopolita.

O ator Bill Murray apresenta sua melhor performance, mostrando um Bob Harris cansado de brigar com a esposa, indiferente ao reconhecimento pelos fãs e que se sente mal por se rebaixar ao esquema mercadológico para conseguir dinheiro.

Scarlett Johansson, em seu início de carreira exibe uma Charlotte que tenta buscar algo além da vida cotidiana e trivial. Busca um transcendentalismo e para isso visita templos japoneses, ouve cds de filosofia e chega até a tentar o Ikebana, a arte de construção de arranjos japoneses.


Vale acrescentar também que o filme critica a invasão ideológica ocidental no oriente, na seqüência em que John comenta o fato de os integrantes da banda se renderem ao “estilo Keith Richards” (e como isso acabou isso acabou descaracterizando os mesmos) e na atriz Kelly, amiga do fotógrafo que vai ao Japão para lançar um filme. Esta personagem é incrivelmente fútil e estúpida, mostrando a postura pasteurizada e condescendente do cinema comercial americano.

Outro ponto a ser comentado é a resistência da cultura tradicional e milenar japonesa, apesar da massificação trazida pela homogeneização americana. O humor advindo das diferenças culturais jamais soa preconceituoso ou pejorativo em relação aos cidadãos locais, que por sua vez são retratados como pessoas prestativas e gentis.

Contando com uma fotografia inspirada e trilha sonora agridoce, esta película ilustra de forma bastante fiel o homem perdido no contexto contemporâneo, imerso num caldeirão de diferentes culturas, embora todas estejam submissas a uma só língua: a do capital. Um alerta sobre a eventual perda de nossa identidade frente aos avanços do nivelamento ideológico que acompanha a globalização, sendo o amor como a única forma de construir uma imunidade.


Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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