Ads Top

Na Lupa | Afinidade fraternal e autismo em Rain Man

O gênero “road movie” é referente às narrativas que giram em torno de dois ou mais personagens que não se entendem e precisam fazer uma viagem juntos. Uma série de episódios fará com que aprendam a se relacionar e conhecer.

Várias películas foram elaboradas seguindo esta premissa, mas quando um diferencial é explorado uma simples história pode se tornar mais complexa, enriquecendo a trama.


A seguinte projeção acompanha a trajetória de Charlie Babbitt, um negociante de carros importados que, após receber a notícia do falecimento de seu pai, descobre que este deixou a herança de três milhões de dólares para Raymond, o irmão mais velho cuja existência ele desconhecia.

A situação torna-se mais complexa quando ele descobre que o novo milionário é um autista que desconhece o conceito de dinheiro. Irritado com a decisão de seu pai ele resolve “seqüestrar” o beneficiário da clínica psiquiátrica onde está hospedado para solicitar metade da quantia como resgate.

Um novo complicador reside no fato de que seu cativo necessita seguir uma série de rotinas e rituais para se proteger da realidade e suas exigências começam a prejudicar uma venda em andamento.

Tendo em vista toda esta conjuntura ele resolve então solicitar a custódia do mesmo, marcando uma entrevista com os psiquiatras responsáveis enquanto atravessa o país com seu irmão para chegar em casa a tempo de finalizar a transação dos automóveis.

No decorrer da viagem Charlie passa a conhecer melhor seu único parente vivo, suas idiossincrasias e habilidades com números e memorização, além da razão de sua internação e do segredo sobre sua identidade.


Essa interação provoca uma mudança em seu caráter, pois o protagonista antes egoísta e impaciente desenvolve uma relação de cuidado e carinho com Raymond e esse amadurecimento é refletido no romance com Susanna, sua colega de trabalho.

É importante salientar que apesar da alteração de comportamento com seu irmão ele não se transforma em alguém diferente no final da jornada (o que é um grande diferencial no gênero), apenas um indivíduo que conseguiu vencer sua dificuldade em interagir com outras pessoas sem criar um distanciamento.

A montagem do cineasta Barry Levinson é cuidadosa ao retratar não somente a progressão da afinidade da dupla, mas também o itinerário de Raymond, fazendo com que o espectador se afeiçoe ao personagem e suas manias.

O diretor mantém com eficiência o clima agridoce durante todo o desenvolvimento da história, o que é essencial para que a mesma consiga fluir sem parecer forçada ou maniqueísta.

Impossível comentar o elenco sem mencionar a excelente performance de Dustin Hoffman como o doce e perturbado autista que comove e cativa com sua triste trajetória. Tom Cruise em início de carreira consegue transmitir a energia necessária ao protagonista e a belíssima Valeria Golino surge como contrapeso nesta simbiose fraternal.

Vencedor do Oscar de melhor filme em 1989, este filme retrata de maneira sensível e divertida a evolução da afinidade entre dois irmãos, algo de sincero e humano com o qual podemos sempre nos identificar.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

Tecnologia do Blogger.