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Na Lupa | O existencialismo tragicômico de Pequena Miss Sunshine

O Existencialismo é uma corrente filosófica e literária que destaca a liberdade individual, a responsabilidade e a subjetividade do ser humano, considerando cada homem como um ser único que é mestre dos seus atos e do seu destino. A película a seguir segue essa linha de pensamento.

Dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris, o filme mostra a trajetória de uma família disfuncional formada por um fracassado guru de auto-ajuda, seu cunhado que está saindo da clínica psiquiátrica após uma tentativa de suicídio, o filho que adora o filósofo existencialista Friedrich Nietzsche e fez um voto de silêncio até entrar na Força Aérea e seu pai que é viciado em heroína, além da filha menor cuja jornada será o fio condutor da narrativa.


Desde a primeira seqüência a garotinha já encanta o espectador, espelhando-se na expressão de vencedora de um concurso de miss, já que sua vida parece girar em torno disso. O brilho em seus olhos mostra o quanto essa competição significa para ela. O interessante em tudo isso é que ela não segue os padrões requeridos, usando óculos relativamente grandes e uma barriga proeminente, como a de toda criança saudável.

A história tem início quando a garota é convocada para o concurso do título em um outro estado e a família a acompanha numa Kombi caindo aos pedaços, um ambiente onde esses personagens são obrigados a conviver, compartilhando suas diferentes experiências e ideologias, o que enriquece de forma considerável o roteiro da película.

Todos na família, com exceção da mãe da protagonista parecem sofrer algum tipo de limitação imposta pela sociedade. Frank é um acadêmico que ficou deprimido e tentou se matar porque alguém medíocre foi considerado genial na mesma especialidade que ele, chegando a perder alguém que amava por causa disso. Richard realmente acredita no seu “programa de nove passos” ( a ponto de policiar todos a seu redor), mas não consegue um editor para lançar o seu livro e mesmo Dwayne encontrará um empecilho que porá em cheque o seu grande desejo de se tornar um piloto.


Todos seguem em busca de um mesmo objetivo que dará sentido às suas vidas, mas no decorrer da viagem percebem a futilidade dos padrões que usam como medida de comparação em suas respectivas vidas.

Nesse ponto a temática do filme mostra como todo esse conjunto normativo acaba reprimindo várias pessoas que tem potencial para irem muito além de suas expectativas, mas acabam se rendendo aos estigmas impostos pela sociedade reguladora.


A belíssima trilha sonora e a fotografia inspirada dão o tom agridoce e tragicômico da projeção, onde a cada momento surge uma adversidade que obriga esses personagens aparentemente díspares a entrar em sintonia para seguir adiante. O elenco também merece uma menção especial, com destaque para Alan Arkin como o avô hedonista e Steve Carell, que mostra seu verdadeiro potencial como ator, mostrando que tem algo mais a oferecer que papéis humorísticos.

O final surpreendente mostra a força da essência interior e como todos os nossos problemas parecem pequenos quando observamos o contexto social do qual aparentemente precisamos ou queremos fazer parte.


Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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