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Na Lupa | O ideal vs pessoal em Casablanca

Analisando a estrutura do roteiro da seguinte projeção é difícil acreditar que o mesmo foi escrito às pressas, dada a precisão e a dinamicidade com que a narrativa se desenvolve, com diálogos inteligentes e rápidos.

A história ocorre em 1941, durante o ápice da dominação nazista na Europa, onde os refugiados buscavam uma rota de fuga passando cidade do título, uma colônia francesa em Marrocos, com a finalidade conseguir um visto para Lisboa, local onde finalmente embarcariam para a América, alcançando assim sua liberdade.

Nesse contexto, dois mensageiros oficiais alemães são mortos e o assassino foge para Casablanca, a fim de vender os salvo-condutos roubados por um altíssimo preço a um notório líder da resistência francesa que insiste em escapar das garras do império nazista.

A transação ocorreria em um famoso café da região, mas o infrator é preso, tendo entregado os valiosos documentos ao dono do local antes de ser apanhado pelos nazistas. O conflito se acentua quando a esposa do famoso fugitivo revela-se uma antiga paixão daquele que agora possui em suas mãos a decisão do futuro do movimento rebelde.


Os personagens são inicialmente apresentados e quando o conflito se estabelece vemos suas motivações devidamente expostas.  O amargurado, indiferente e cínico Rick perde todas as suas defesas quando reencontra a belíssima Ilsa Lund, casada com Victor Laszlo, nêmesis do tirânico General Strasser.

É interessante notar como a nacionalidade age de forma imperativa sobre o caráter dos personagens: os alemães disputando a hegemonia com os italianos, o americano que a princípio se distancia, mas depois se envolve e os franceses que apesar de submissos ao poder germânico possuem uma profunda paixão por seu país.

Nesse ponto destaco a relação de cumplicidade entre o chefe de polícia Louis Renault e Rick, que confere uma complexidade riquíssima painel gerado em função das situações-chave que vão criando caminhos onde se torna impossível prever o desfecho, o que em si já é um grande mérito para a obra em questão.

O diretor Michael Curtiz, através de belíssimos enquadramentos, consegue apresentar não somente os diferentes aspectos do caráter de seu protagonista, mas ilustra também como os outros reagem a ela, especialmente o inspetor francês que se surpreende com algumas de suas atitudes, mesmo acreditando conhecê-lo.


O contraste entre luz e sombra favorece a percepção da essência dos personagens, realçando a verdadeira natureza de seus atos.

O elenco formidável contribui para enaltecer a beleza da obra em questão, fazendo menções especiais a Humphrey Bogart e Ingrid Bergman que contribuíram com suas interpretações para transformarem Rick e Ilsa em um casal icônico na história cinematográfica, sendo citados e homenageados em inúmeros filmes.

Casablanca é um clássico repleto de sequências antológicas cujos detalhes nos enquadramentos podem ser percebidos mesmo depois de revisitado vários vezes e a beleza de sua montagem ímpar continua influenciando criadores através de gerações, em função da genialidade de sua construção.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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