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Na Lupa | A decadência do humanismo em A Estrada

O teórico iluminista francês Jean Jacques Rousseau tinha a convicção de que o ser humano é naturalmente bom, sendo corrompido pela sociedade. Os princípios de vida em comunidade funcionam como parâmetro para distinguir o certo do errado, estabelecendo assim certo equilíbrio moral entre os cidadãos.


Em determinadas situações o homem termina sendo guiado por seus instintos mais básicos de sobrevivência e toda a sua perspectiva torna-se distorcida, pois a desconfiança na índole de terceiros se transforma em condição essencial para a nossa preservação e daqueles que estimamos.

Adaptada do romance homônimo de Cormac McCarthy, a narrativa desta película acompanha a jornada de um pai com seu filho por um mundo pós-apocalíptico, onde praticamente toda a humanidade foi dizimada por um cataclismo inexplicado que destruiu grande parte da vida sobre a Terra.

Caminhando sempre para o sul num ambiente inóspito, eles enfrentam a fome e o frio enquanto escapam quase desarmados de algumas pessoas que aderiram ao canibalismo em função da falta de alimento. Numa conjuntura onde a angústia e o desespero prevalecem, eles precisam buscam forças para seguir andando até encontrar um local que ofereça comida e segurança.

A montagem do cineasta John Hillcoat alterna momentos do presente com flashbacks que dão informações sobre a mãe do garoto e o que aconteceu com ela. O tom mais claro e colorido das imagens do passado faz uma clara distinção sobre a discrepância dos instantes em que os personagens se encontram.

A ausência de nomes dos protagonistas é uma ilustra a universalidade da sua condição. Suas reações são perfeitamente justificáveis a qualquer um que estivesse naquele contexto.


O menino, mais ingênuo quer ajudar a todos que necessitam, enquanto seu protetor age de forma egoísta para preservar ao máximo seus mantimentos e treinar seu filho sobre a imprevisibilidade da natureza humana.

Enquanto trafegam por locais lúgubres e desérticos eles encontram pessoas de diferentes raças e idades, cada um reagindo de forma diferenciada às mudanças do ambiente, tendo em comum a desconfiança e o instinto de sobrevivência.

Interessante comentar como o pai gradativamente muda sua postura de acordo com as variações que o momento exige, sendo ocasionalmente forçado a recorrer à violência e agressão para manter os seus pertences e proteger o garoto, que fica muitas vezes confuso frente a esses dilemas éticos e pede a confirmação da moralidade de tais atos.

O elenco traz as ótimas performances de Viggo Mortensen, Charlize Theron, Robert Duvall e Guy Pearce entre outros nessa história sobre manter sempre viva a fé e a sanidade da consciência quando a realidade torna-se incrivelmente crua, testando nosso limite emocional e físico.

A urgência de acreditar num futuro possível onde a generosidade de nosso espírito não foi completamente corroída pelo desespero e indiferença no próximo.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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