Ads Top

Na Lupa | Poder e delírios em O Cheiro do Ralo

A recente safra de cinema nacional tem produzido basicamente dois tipos de filmes: aqueles protagonizados por estrelas globais, com histórias fracas e visando o lucro das bilheterias ao lado de outros que primam pela originalidade, brindando o espectador com montagens alternativas, histórias inteligentes e atuações inspiradas.

O problema encontra-se na divulgação. Enquanto o primeiro “vende” fácil, o segundo precisa ganhar algum prêmio ou contar com um ator famoso no elenco, ou então ficará vagando no limbo dos festivais de cinema, o que é incrivelmente injusto, mas real.

A projeção a seguir conseguiu emergir um pouco, o suficiente para que ficasse conhecida, graças ao seu ator principal, que além de ser conhecido pelo grande público, ajudou divulgando quando e como pôde principalmente em programas de TV.


Baseado na obra homônima de Lourenço Mutarelli, a narrativa acompanha a trajetória de Lourenço, o dono de uma loja de penhores que passa o dia atendendo pessoas que o procuram para vender objetos, pois precisam desesperadamente de dinheiro. Indiferente ao sofrimento alheio, suas únicas obsessões são o traseiro de uma garçonete e o cheiro do ralo do banheiro de seu escritório que gradativamente vai se tornando insuportável.

A frieza desenvolvida para a obtenção de lucro transformou-se em prazer na decisão do destino daqueles que o procuram, jogando com a angústia de terceiros.

Esse distanciamento terminou incrementando também uma rejeição a qualquer tipo de envolvimento emocional, a ponto de não mesurar o quanto suas palavras podem magoar alguém, guardando semelhança com o protagonista do filme “Melhor é Impossível”.

Um detalhe interessante é que todos os personagens são anônimos, já que observamos tudo pela ótica do perturbado e instável Lourenço.


Sua relação de amor e ódio com o ralo é interessantíssima: a principio tenta de todos os modos suprimi-lo e abafá-lo (como a Lady Macbeth shakespeariana, que não conseguia se livrar do sangue do homicídio em suas mãos) esclarecendo aos visitantes que o cheiro não vem dele, mas sim do ralo. Aos poucos, percebemos que há uma relação intrínseca entre ambos, já que o encanamento fedido é um espelho da essência do protagonista.

Nesse ponto lembro um ensaio escrito por Milan Kundera em sua obra máxima, “A insustentável leveza do ser”, onde ele pondera sobre a analogia entre a natureza humana e o esgoto como depositório de todas as fraquezas e defeitos expurgados e isolados a uma distância segura de forma rápida e segura, como se nunca estivéssemos ligados a eles.

O olho de vidro adquirido em certo ponto da narrativa é uma tentativa de Lourenço de atribuir um aspecto humano à sua personalidade, enriquecendo a complexa psique do personagem. Nesse ponto destaco o fenomenal trabalho de Selton Mello, que consegue trazer à tona todas as nuances deste tragicômico personagem, condenável em alguns aspectos, mas incrivelmente carismático.

“O cheiro do ralo” é um exemplo da potencialidade do cinema nacional, que tem bastante a oferecer, desde que se concentre na história e nas atuações _ o básico e essencial para uma projeção de qualidade.

Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

Tecnologia do Blogger.