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Na Lupa | Conflito de gerações em As Invasões Bárbaras

Em nosso tempo é alarmante notar que nossa experiência histórica contribuiu muito pouco para nosso amadurecimento emocional e psicológico, de forma que acabamos repetindo os mesmo erros cometidos no passado.

Todos os paradigmas que foram se derivando para buscar uma melhor compreensão do pensamento humano e sua consequente decodificação dos sinais que se apresentam ao nosso redor foram suprimidos pela ideologia calcada no imediatismo, pragmatismo e eficiência, especialmente a nível financeiro. Esta projeção traça um interessante paralelo entre essas duas formas de pensamento.


A narrativa acompanha os últimos dias de Rémy, um professor de história cuja doença terminal o enclausura em uma enfermaria no Canadá. Seu pensamento anarquista e liberal sempre divergiu dos ideais capitalistas de seu filho Sebastien, um administrador de riscos financeiros para grandes empresas, mas as diferenças são postas de lado quando o rapaz busca todas as formas possíveis para que seu pai aproveite ao máximo seus últimos dias, ainda que seja em uma cama no hospital.

É importante informar também que apesar da doença e das dores, o protagonista nunca perde o seu bom humor e seu carisma contagiante, embora tema a morte iminente em certos momentos.

O filme é uma sequência de outro intitulado “A queda do Império Americano” que conta com os mesmos personagens quando eram mais jovens discutindo temas semelhantes, tais como o sentido da violência no século XX, ascensão e decadência da hegemonia ideológica americana no planeta, assim como relações amorosas e ponderações filosóficas a respeito da trajetória do espírito humano ao longo de sua vida na Terra.

Ressalto que embora seja uma continuação, é perfeitamente viável assistir a esta película sem ter assistido à primeira. São dois contextos completamente diferentes que se completam apesar de independentes um do outro.

Enquanto na primeira projeção foi discutida a questão de limitação comportamental dentro de uma sociedade normativa, a segunda trata do conflito de ideologias com a nova geração que não mais lê livros, vivendo de videogames e internet, sem pensar no próprio contexto histórico enquanto raciocina de forma simples e cartesiana. O dionisíaco versus o apolíneo.


Essa temática pode ser confirmada não somente no distanciamento do professor de seu filho, mas de seus alunos. As sequências em que ele comunica sua retirada por motivo de doença e os garotos só indagam a respeito do calendário de provas mostra a indiferença dos mesmos pela disciplina e por seu antigo mestre.

O cineasta Deny Arcand apresenta um relato agridoce sobre este período de transição onde aqueles que refletiam e buscavam uma realidade mais interessante a nível emocional estão dando passagem para um novo grupo que tem sua mente direcionada para a praticidade e o sucesso monetário.

Uma belíssima obra sobre a necessidade que temos de aproveitar cada momento, absorvendo intensamente todas as experiências possíveis, pois são elas que constituem nossa essência, traduzindo a verdadeira realização do espírito humano.


Gilson Pessoa

Escritor e poeta formado em jornalismo pela UFJF. Mineiro nerd, nostálgico e sonhador, apaixonado por literatura e cinema.

|@Gilson106

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